“Isto não é um cachimbo.”

Fui escolhida pelo entorno que me rodeia e não procurei Violeta, mas ela me achou. Grata pelo regalo do encontro, ofereci a ela sangue puro e histórias em processo. Uma deusa menina nos sacudou com risos berrantes e rituais de canto, trazendo consigo seres brandos na selvageria. Ora assobiávamos, como se o som dos carros fossem fundo musical de uma quebrada de ondas do mar, ora abria Anais Nin e lia alguns contos eróticos. Me agucei na escrita assim. Violeta me incentivava a seguir me expondo, conhecendo minha alma e meu corpo. Chegou pertinho e plantou na concha de minhas mãos um punhado de sal grosso com gotas de luz.

Seu sol era radiante e invadia qualquer barreira de escuridão. Mostrava já cedinho, na cama, a paisagem milagrosa do despertar. Rolar com ela era parte do encanto de ver em suas esquinas de madeira minhas próprias curvas. Tive amor em acarinhá-la, enfeitando-a de penas e flores. Parecia uma índia véia a moça. Duas curumins rindo com o bailado da inocência. Manhosa, se esfregava em mim e ascendia o prazer em ver um espírito renascendo. Eu colhia umas lenhas e punha a fogueira a dançar conosco. As chamas enlouqueciam de felicidade; pulavam em ciranda e gritavam de alegria aos sete cantos.

Assim sendo, a estrada me invocou que caminhasse. O ninho Violeta nada disse, mas, sereno como era,  recobriu de bênçãos meu novo ciclo. Nossa despedida durou semanas. Comemoramos na rede, na presença e com a pança cheia de sabores e afetos. Aos poucos, nem notávamos, tão natural era, e os objetos iam se despedindo, buscando novos contos. O gerânio disse que seria o curandeiro de um bebê que vinha e as chitas tomavam o rumo de um templo sagrado nos arredores da cidade. Quando já me via cabisbaixa, o assoalho de Violeta ergueu meu queixo e tocou meus lábios. Éramos feitas da mesma poeira cósmica.

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O Pouso

Não se comunicava pela palavra. Sua boca balbuciava muito mais que sílabas e podia contar em abraços a quanto tempo havíamos nos encontrado, mas já éramos íntimas, sentadas diante da neblina de uma janela.

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– Serração. Bonito, sim?

O suco dos sinais de sua pele se espremiam neste instante. Sabia bem do que se tratava. Na quietude do silêncio, contemplei o negrume dos seus olhos. Era como se cada marca nela contasse uma história. Mapas de muitos lugares e amores, longíquos no olhar viajante que se esticava. Um chiado nos interrompeu. Virei e lá estava a fumaça da chaleira. Em todo o ambiente, só se ouvia o fogão e o ranger das cadeiras. Ah, e os passarinhos que amanheciam, como pude esquecer. Enchi a cuia e o cheiro tomou a madeira local.

– Mira, quer?

Um sorriso banguela se abriu. Sentei-me e reaproximei nossos corpos; o frio era só uma desculpa. Enquanto segurava o mate para que ela tomasse, recostei minha cabeça em seu ombro manso, ali, na curvinha do braço com o pescoço, e fui acolhida com o carinho na sutileza de um mundo. Fechei os olhos e pude sentir andanças de mil e uma vidas. Me ensinou que a peregrinação iniciava no aconchego do que não se explica em guias de revista. Sem pressa, deslizou a mão em meu rosto e, por um instante, entreabri os olhos. Quanta geografia contida em seus dedos, na base da montanha de suas palmas que se uniam, de súbito, com o planalto da curva das unhas finas e amareladas. Aquele gesto ascendeu um ar em meu peito e fez com que um longo suspiro fosse liberto.

Ficamos assim e parecia que uma eternidade havia nos acompanhado. Ouvi alguém que me chamava, “Maria, vamos!”, e, com meu sobressalto, os sons da cidade reapareceram. Aninhamos uma a face da outra e éramos uma.

– Foi um prazer conhecê-la. Tenho que ir… me chamam. Logo nos encontramos.

 “Está tudo certo”, ela insinuava, e seu abraço era o melhor do mundo.

 – Já me vou. Até.

A outra moradora da casa chegou e Ivone me esperava lá fora. Me movi em direção ao carro e entrei no banco de acompanhante. Ao dar partida, olhei para trás e lá estava ela, acolhida por uma casinha de tábuas e portas abertas, admirando a paisagem pela janela.

– Ivone, qual mesmo o nome dela?

– O da artesã?

– Não, sua mãe…

– Ah, sim, Dona Alma…

Continuei a observando, à medida que nos distanciávamos. Uma borboleta acabava de voar por sua vidraça, tomando-lhe a atenção. Naquele minuto, eu já não fazia mais parte do seu presente.

Argentina com ternura

Do reflexo de uma projeção cinematográfica porteña, sentí meu rosto iluminar de brandura e alegría. Como encontrar a essência do ser que ressurge do barro da origem? Sentindo-a. Assim, o peregrino Atahualpa ontem mostrou em “Los caminos de Atahualpa Yupanqui” o choro poético da viola dos pampas argentinos, a Milonga. Ele, Yupanqui, soprava que somos hermanos pela cordas, pelos sons, suaves como as danÇarinas pampas e seus lenÇos esvoaÇantes, resgatando a pureza  em ser humano.

Um dia antes de sábado, falava com Chaski do encanto da luz e sua sutileza energética, enquanto sacávamos cliques de uma Buenos Aires re buena onda. Relacionei ela, a luz, ao amor pela foto-grafia, onde lê-se ¨escrita da luz¨, que pinta em aquarela a natureza. Se liberta do espaÇo e escreve o movimiento do mundo atemporal. Ahhhh, las luces del cine! No sábado, enfim, pude experienciar um sonhado cine de calle, autêntico cinema de rua! Mesmo fazendo 15 dias de contato com o español pela primeira vez, sentí que o idioma não seria uma barreira. E não foi mesmo.

Sentados no chão de una plazita, a pequeña tela obtinha um desenho muito peculiar do sombreado das copas das árvores, movidas pelo balanÇo do vento forte. Em pouco tempo, hermanos se aconchegaram e a sessão iniciou. Sem me dar conta, quietos e sem buscas, ali eram Chaski e Luzia em plenitude, que mergulhavam no silêncio e na escuta. As imagens iniciavam em um local onde os campos da serra de Córdoba já não existiam, e onde, muitas vezes, a seca se fazia valer, pero juntamente desabrochava um povo guerreiro. Sim, o documentário iniciava com paisagens da região de San Marcos Sierra. Sem dúvidas, estávamos em um feliz encontro.

Na tela, um abuelo, contador de sabedorias que não se encontram em livros, histórias de um violeiro crioulo. Um sábio que entendia o mundo sem fronteiras, que respeitava a naturaleza e sua danÇa. Seus longos dedos trilhavam canções e sonhos de uma Argentina por trás da nação, construída por emoções de seres sensíveis. Andarilho, repassava a vivência de quem crê na relações do bicho homem como parte integrante de Pachamama e se enamora a cada passo que encontra pela frente. Que observa os céus e vê que, assim como um pássaro, a liberdade do voo é possível e que no pouso haverá sempre um acalento da Madre Tierra. Porque nela tudo se nutre e renova, assim como o ato de se escorar e observar a coreografia das estrelas na beira de uma estrada.

Logo mais, o trem parte em direção à serra dourada pelo verão. Que soem os acordes da Maria Fumaça!

Quatro mulheres, um ponto.

O corpo era bonito, não em um conjunto que tanto me atraísse, mas pelo pleno acondicionamento autônomo que ele refletia. Flutuei na presença daquele enraizamento, repleto de fios que mais lembravam finos cabelos de espiga de milho. Figura rara, pensei, com postura tão farta e robusta, que transcende interferências externas , blindando-as pela liberdade. Aquele era um corpo único, assim como todos os outros. […]

Poema Sujo – um fragmento: “Velocidades”

Mas na cidade havia muita luz,

a vida fazia rodar o século nas nuvens
sobre nossa varanda
por cima de mim e das galinhas no quintal
por cima do depósito onde mofavam
paneiros de farinha atrás da quitanda,
e era pouco
viver, mesmo
no salão de bilhar, mesmo
no botequim do Castro, na pensão
da Maroca nas noites de sábado, era pouco
banhar-se e descer a pé
para a cidade de tarde
(sob o rumor das árvores)
ali no norte do Brasil
vestido de brim.
E por ser pouco
era muito,
que pouco muito era o verde
fogo da grama, o musgo do muro, o galo
que vai morrer,
a louça na cristaleira,
o doce na compoteira, a falta
de afeto, a busca
do amor nas coisas.
Não nas pessoas:
nas coisas, na muda carne
das coisas, na cona da flor, no oculto
falar das águas sozinhas:
que a vida passava por sobre nós,
de avião. Não tem a mesma velocidade o domingo
que a sexta-feira com seu azáfama de compras
fazendo aumentar o tráfego e o consumo
de caldo de cana gelado,
nem tem a mesma velocidade
a açucena e a maré
com seu exército de borbulhas e ardentes caravelas
a penetrar soturnamente o rio
noutra lentidão que a do crepúsculo
que, no alto,
com sua grande engrenagem escangalhada
moía a luz.
Outra velocidade
tem Bizuza sentada no chão do quarto
a dobrar os lençóis lavados e passados
a ferro, arrumando-os na gaveta da cômoda, como
se a vida fosse eterna.
E era naquele seu universo de almoços e temperos
de folhas de louro e de pimenta-do-reino
mastruz para tosse braba,
universo de panelas e canseiras entre as paredes da cozinha
dentro de um surrado vestido de chita,
enfim,
onde batia o seu pequenino coração.
E se não era
eterna a vida, dentro e fora do armário,
o certo é que tendo cada coisa uma velocidade
(a do melado
escura, clara a da água
a derramar-se)
cada coisa se afastava
desigualmente
de sua possível eternidade .
Ou se se quer
desigualmente a tecia
na sua própria carne escura ou clara
num transcorrer mais profundo que o da semana.
Por isso não é certo dize
que é no domingo que melhor se vê a cidade
– as fachadas de azulejo, a Rua do Sol vazia
as janelas trançadas no silêncio –
quando ela parada
parece flutuar.
E que melhor se vê uma cidade
quando – como Alcântara
todos os habitantes se foram
e nada resta deles (sequer
um espelho de aparador num daqueles
aposentos sem teto) – se não
entre as ruínas
a persistente certeza de que
naquele chão
onde agora crescem carrapichos
eles efetivamente dançaram
(e quase se ouvem vozes
e gargalhadas
que se acendem e apagam nas dobras da brisa)
Mas se é espantoso pensar
como tanta coisa sumiu, tantos
guarda-roupas e camas e mucamas
tantas e tantas saias, anáguas,
sapatos dos mais variados modelos
arrastados pelo ar junto com as nuvens,
a isso
responde a manhã
que
com suas muitas e azuis velocidades
segue em frente
alegre e sem memória
É impossível dizer
em quantas velocidades diferentes
se move uma cidade
a cada instante
(sem falar nos mortos
que voam para trás)
ou mesmo uma casa
onde a velocidade da cozinha
não é igual à da sala (aparentemente imóvel
nos seus jarros e bibelôs de porcelana)
nem à do quintal
escancarado às ventanias da época
e que dizer das ruas
de tráfego intenso e da circulação do dinheiro
e das mercadorias
desigual segundo o bairro e a classe, e da
rotação do capital
mais lenta nos legumes
mais rápida no setor industrial, e
da rotação do sono
sob a pele,
do sonho
nos cabelos?
e as tantas situações da água nas vasilhas
(pronta a fugir) a rotação
da mão que busca entre os pentelhos
o sonho molhado os muitos lábios
do corpo
que ao afago se abre em rosa, a mão
que ali se detém a sujar-se
de cheiros de mulher,
e a rotação
dos cheiros outros
que na quinta se fabricam
junto com a resina das árvores e o canto
dos passarinhos?
Que dizer da circulação
da luz solar
arrastando-se no pó debaixo do guarda-roupa
entre sapatos?
e da circulação
dos gatos pela casa
dos pombos pela brisa?
e cada um desses fatos numa velocidade própria
sem falar na própria velocidade
que em cada coisa há
como os muitos
sistemas de açúcar e álcool numa pêra
girando
todos em diferentes ritmos
(que quase se pode ouvir)
e compondo a velocidade geral
que a pêra é do mesmo modo que todas essas velocidades mencionadas
compõem
(nosso rostd refletido na água do tanque)
o dia
que passa
– ou passou –
na cidade de São Luís.
E do mesmo modo
que há muitas velocidades num
só dia
e nesse mesmo dia muitos dias
assim
não se pode também dizer que o dia
tem um único centro
(feito um caroço
ou um sol)
porque na verdade um dia
tem inumeráveis centros
como, por exemplo, o pote de água
na sala de jantar
ou na cozinha
em tomo do qual
desordenadamente giram os membros da famflia.
E se nesse caso
é a sede a força de gravitação
outras funções metabólicas
outros centros geram
como a sentina
a cama
ou a mesa de jantar
(sob uma luz encardida numa
porta-e-janela da Rua da Alegria
na época da guerra)
sem falar nos centros cívicos, nos centros
espíritas, no Centro Cultural
Gonçalves Dias ou nos mercados de peixe,
colégios, igrejas e prostíbulos,
outros tantos centros do sistema
em que o dia se move
(sempre em velocidades diferentes)
sem sair do lugar.
Porque
quando todos esses sóis se apagam
resta a cidade vazia
(como Alcântara)
no mesmo lugar. Porque
diferentemente do sistema solar
a esses sistemas
não os sustém o sol e sim
os corpos
que em tomo dele giram:
não os sustém a mesa
mas a fome
não os sustém a cama
e sim o sono
não os sustém o banco
e sim o trabalho não pago
E essa é a razão por que
quando as pessoas se vão
(como em Alcântara) apagam-se os sóis (os
potes, os fogões)
que delas recebiam o calor
essa é a razão
por que em São Luís
donde as pessoas não se foram
ainda neste momento a cidade se move
em seus muitos sistemas
e velocidades
pois quando um pote se quebra
outro pote se faz
outra cama se faz
outra jarra se faz
outro homem
se faz
para que não se extinga
o fogo
na cozinha da casa
O que eles falavam na cozinha
ou no alpendre do sobrado
(na Rua do Sol)
saía pelas janelas se ouvia nos quartos de baixo
na casa vizinha, nos fundos da Movelaria
(e vá alguém saber
quanta coisa se fala numa cidade
quantas vozes
resvalam por esse intrincado labirinto
de paredes e quartos e saguões,
de banheiros, de pátios, de quintais
vozes entre muros e plantas,
risos,
que duram um segundo e se apagam)
E são coisas vivas as palavras
e vibram da alegria dó corpo que as gritou
têm mesmo o seu perfume, o gosto
da carne
que nunca se entrega realmente
nem na cama
senão a si mesma
à sua própria vertigem
ou assim falando ou rindo
no ambiente familiar
enquanto como um rato
tu podes ouvir e ver
de teu buraco
como essas vozes batem nas paredes do pátio vazio
na armação de ferro onde seca uma parreira
entre arames
de tarde
numa pequena cidade latino-americana.
E nelas há
uma iluminação mortal que é da boca
em qualquer tempo
mas que ali
na nossa casa
entre móveis baratos
e nenhuma dignidade especial
minava a própria existência.
Ríamos, é certo,
em torno da mesa de aniversário coberta de pastilhas
de hortelã enroladas em papel de seda colorido,
ríamos, sim,
mas
era como se nenhum afeto valesse
como se não tivesse sentido rir
numa cidade tão pequena.
O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade
mas variados são os modos
como uma coisa
está em outra coisa:
o homem, por exemplo, não está na cidade
como uma árvore está
em qualquer outra
nem como uma árvore
está em qualquer uma de suas folhas
(mesmo rolando longe dela)
O homem não está na cidade
como uma árvore está num livro
quando um vento ali a folheia
a cidade está no homem
mas não da mesma maneira
que um pássaro está numa árvore
não da mesma maneira que um pássaro
(a imagem dele)
está/va na água
e nem da mesma maneira
que o susto do pássaro
está no pássaro que eu escrevo a cidade está no homem
quase como a árvore voa
no pássaro que a deixa
cada coisa está em outra
de sua própria maneira
e de maneira distinta
de como está em si mesma
a cidade não está no homem
do mesmo modo que em sua
quitandas praças e ruas

(Ferreira Gular)

Buenos Aires, mai/out/1975

Jam Session…

Esmiúço sopros de Lester Young. Tempos não apreciava companhias desta fineza… se realizasse desenhá-lo, exporia ângulos suaves de partes que só possuo na fantasia, traçaria o último fôlego de melodia respigado no nó dos acordes. E que resquício elaborado. Tenho desejo em abarcá-lo, porém recuo, sentindo que na morte do sax grave se sucede a abundância de um agudo enlevado ao sublime. O negrume de seu som transmite visão parcial, parte da imersão na neblina espessa.

A inacessibilidade da charada auditiva faz com que o sentido se desloque ao longo da pele. Puro jazz reativo que responde a volta de rodeios dantes conhecidos, ao passo que ascende o mormaço do corpo arrebatado. Trago comigo o vício na destreza daqueles dedos musicais e, em meio a malemolência na execução das notas, fissuro saborear do tabaco que envolve o plano de fundo da jam.